Michael Jackson: A máscara era de gesso
Michael Jackson deixou de respirar em 25 de junho, mas já era morto para o show-businness, desde meados da década de 90. Passara mais de quinze anos fora dos palcos e pelo menos oito longe de um estúdio de gravação. Michael Jackson não mais existia como artista. Administrava o seu próprio personagem, a representação da “commedia dell’ arte” veneziana: um molde que deveria lhe dar a feição de uma máscara de porcelana, mas que para sua desventura acabou sendo de gesso. Porcelana é barro cozido e misturado e se desfaz em pedaços inteiros quando quebra; o gesso vai sendo roído e vira pó. O menino da “Terra do Nunca”, tarde demais, descobrira que toda escolha implica em perdas.
Michael Jackson queria e precisava ser artista de novo e nesse desejo imaginou congelar o tempo, como na câmara de oxigênio que um dia o fez sonhar com a eterna juventude. Imaginava viver 150 anos. Preparava-se para retornar aos palcos, mas não mais tinha fôlego para tanto.
Mike Tyson, outra máscara, ainda respira, fala e anda, mas, como Michael Jackson, já é morto. Já era morto em 1997 quando enfrentou Evander Holyfield e lhe arrancou alguns milímetros de orelha a dentadas, desclassificado por isso e punido, mais uma vez. Retornara aos ringues depois de três anos de prisão, cumprindo pena por estupro, acusado pela modelo Desiree Washington. Tyson voltara aos ringues para ganhar algum dinheiro e pagar os credores. A mesma necessidade de Michel Jackson que, segundo informa a mídia, administrava uma dívida de 500 milhões de dólares; parte dela seria saldada com a turnê londrina de 50 shows agendada para este mês.
Tyson e Jackson foram meninos prodígios revelados para o esporte e o show-businnes precocemente. O primeiro oriundo do Brooklin, o segundo do Harlem, os dois bairros negros de Nova Iorque. Ambos lidaram com a rejeição, o racismo e a pobreza e já adultos transformaram-se em ídolos populares, remunerados com milhões e milhões de dólares. A imprensa exaltou os seus talentos. Mas também os seus conflitos que valeram ao pugilista alguns anos atrás das grades; ao artista vários processos por pedofilia, um deles resolvido mediante acordo financeiro com desembolso de mais de 20 milhões de dólares; o outro julgado a seu favor após longa exposição negativa na mídia.
Mike Tyson admitiu nos tribunais que usou um pouco de força. Michel Jackson declarou que não via mal nenhum em dormir na cama com garotos, seus convidados no rancho Neverland.
Thriller
Dizem que quando criança Mike Tyson amava os pombos e teria surrado um garoto com chutes e socos até sangrar por ter arrancado a cabeça da ave. Jackson também amava os pássaros e segundo o “Daily Mirror” papagaios e outras aves voariam no palco na turnê “This is it”, prevista para Londres a partir de 13 de julho próximo. O cantor planejava ainda entrar em cena montado num elefante africano, dentre outras excentricidades, e ainda prometia efeitos especiais de clonagem para simular vários Jacksons pelo palco e de certo modo enriquecer a coreografia que já imaginava seria o ponto fraco a ser explorado pelos críticos. No seu retorno em 1997 Tyson poderia se dar ao luxo de cair no segundo, ou terceiro round que o seu cachê estaria garantido e a sua promessa de volta aos ringues seria cumprida. Mas, Michael Jackson, que estava com dificuldades para entrar em forma física e memorizar as coreografias, diferente de Tyson, não poderia cair no segundo ato. Tinha de levar o show até o fim. No mesmo pique, com a mesma energia. Um compromisso assustador. Como o “Thriller”. Então evocou o trecho da música em que escuta a criatura, por que a hora chegou: “ Você fecha os olhos e espera que seja tudo imaginação”.
Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia em 02 de julho de 2009

















